quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

Exercício - Semana de Desafios de Escrita: Caixa de Segredos

 

Redenção

Sentei-me em frente ao computador e olhei para a caixa ao lado.

Forcei os olhos para enxergar melhor o conteúdo e escrever o que via.

Me pus a pensar nos segredos.

Eles são como buracos no chão de taco, sobre os

quais colocamos vasos e esperamos que ninguém os veja ou esbarre neles.

Foi difícil e, ao mesmo tempo, não foi.

Sempre que escrevo, espalho um segredo, deixo-o lá, no meio das coisas que invento, e assim perco um pouco do peso de ser uma pessoa que falha — numa sociedade em que errar é proibido. Me aceito humana. Vou acessando o que não é comum ser dito e, assim, é como se finalmente ganhasse o direito de existir.

As coisas sem importância que eu roubava em mercados — fones de ouvido, salgadinhos, bijuterias — apenas pelo desafio;

os adesivos da minha amiguinha que enterrei quando era criança porque senti inveja (uma dessas coisas proibidas);

 a cuspida no copo de água do meu tio porque ele me obrigou a buscar;

as traições por impulso;

o fetiche obsessivo no rapaz que conserta o ar-condicionado do meu trabalho;

o medo de morrer todos os dias;

os vacilos no trânsito;

o rancor da minha mãe.

No jarro de Pandora havia coisas horríveis e, no fundo, a esperança.

Acessar o terrível em mim 

é sempre um consolo.


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