Redenção
Sentei-me em frente ao computador e olhei para a caixa ao lado.
Forcei os olhos para enxergar melhor o conteúdo e escrever o que via.
Me pus a pensar nos segredos.
Eles são como buracos no chão de taco, sobre os
quais colocamos vasos e esperamos que ninguém os veja ou esbarre neles.
Foi difícil e, ao mesmo tempo, não foi.
Sempre que escrevo, espalho um segredo, deixo-o lá, no meio das coisas que
invento, e assim perco um pouco do peso de ser uma pessoa que falha — numa
sociedade em que errar é proibido. Me aceito humana. Vou acessando o que não é
comum ser dito e, assim, é como se finalmente ganhasse o direito de existir.
As coisas sem importância que eu roubava em mercados — fones de ouvido,
salgadinhos, bijuterias — apenas pelo desafio;
os adesivos da minha amiguinha que enterrei quando era criança porque senti
inveja (uma dessas coisas proibidas);
a cuspida no copo de água do meu tio
porque ele me obrigou a buscar;
as traições por impulso;
o fetiche obsessivo no rapaz que conserta o ar-condicionado do meu trabalho;
o medo de morrer todos os dias;
os vacilos no trânsito;
o rancor da minha mãe.
No jarro de Pandora havia coisas horríveis e, no fundo, a esperança.
Acessar o terrível em mim
é sempre um consolo.
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