Gosto de folhear
Os cadernos dos outros
Meu pai desenha monstros
E eu nunca sei se, nos olhos dos monstros,
Estou vendo sua sombra ou sua criança.
Cadernos muitas vezes
São diários
É a subjetividade inconsciente entre rabiscos.
Por minha vez,
Costumo escrever
Em ordem aleatória, pulo páginas e
Sempre escrevo
Frases tristes.
Desenho flores, genitálias e mulheres
Felizes.
Isto sou eu?
Sobre a pessoa que amo,
Seus cadernos são sempre organizados.
Caligrafia invejável, a cor
Das canetas, das marcações, seus desenhos
Metricamente proporcionais,
É tão, tão perfeito
Que dói.
Sagan um dia disse
Que livros são a prova
De que somos capazes
De fazer magia.
Às vezes,
Os escritos dos outros
Nos provam que nossa estrada existe.
Alguém já sentiu o mesmo que nós
E transformou em palavras.
Considerando a história,
Os desenhos rupestres,
A escrita cuneiforme,
Aqui estamos com nossos registros refinados.
Não é insano?
Cadernos quase sempre
São diários
E eu espero que Deus saiba ler
Porque não sei rezar.