quarta-feira, 26 de junho de 2024

Sobre registros

Gosto de folhear

Os cadernos dos outros

Meu pai desenha monstros
E eu nunca sei se, nos olhos dos monstros,
Estou vendo sua sombra ou sua criança.

Cadernos muitas vezes
São diários
É a subjetividade inconsciente entre rabiscos.

Por minha vez,
Costumo escrever
Em ordem aleatória, pulo páginas e
Sempre escrevo
Frases tristes.
Desenho flores, genitálias e mulheres
Felizes.
Isto sou eu?

Sobre a pessoa que amo,
Seus cadernos são sempre organizados.
Caligrafia invejável, a cor
Das canetas, das marcações, seus desenhos
Metricamente proporcionais,
É tão, tão perfeito
Que dói.

Sagan um dia disse
Que livros são a prova
De que somos capazes
De fazer magia.

Às vezes,
Os escritos dos outros
Nos provam que nossa estrada existe.
Alguém já sentiu o mesmo que nós
E transformou em palavras.

Considerando a história,
Os desenhos rupestres,
A escrita cuneiforme,
Aqui estamos com nossos registros refinados.
Não é insano?

Cadernos quase sempre
São diários
E eu espero que Deus saiba ler
Porque não sei rezar.


O Perto Nunca Bastava

 “Nenhuma palavra traduz satisfatoriamente o amalgama de sentimentos que é a saudade. Seria preciso nos outros países a elaboração de um conceito que também amalgamasse um mundo de sentimentos em apenas um termo.” (A saudade Brasileira, Osvaldo Orico) 

Queria, às vezes, só saber de você. 

Sinto saudades. 

Lembra quando te falei dessa palavra? 

Da epistemologia, mas especialmente do seu significado tão brasileiro, tão nosso. 

Sinto falta do seu interesse por curiosidades não pragmáticas, de ouvir as suas histórias. 

Nem sempre eram boas, mas a memorização de detalhes e termos, a empolgação ao contá-las, me apaixonava, me fazia querer estar perto. 

Porque estar perto era ter e ser um pouquinho dessas coisas que te sobram e me faltam. 

Como no hit da Tiê, o perto nunca bastava. 

Queria te contar que o porquinho de pelúcia com touca de banho que me deu ainda está na mesma prateleira que sustenta livros, fotos, dinossauro, cubo mágico – na então categoria de coisas que fazem sentido. 

Porém, seus bilhetes se foram. 

É que não deixo um bocado de você ir embora, 

ao passo que já não associo suas palavras como verdades. 

Aos poucos, uma hora, você e a pelúcia se vão. 

Ainda não sei o que faço com a falta, com a nossa vida no interior que não vai existir, com o seu doce olhar exclusivamente pra mim, que nunca existiu. 

Te deixar ir é uma dessas escolhas, por ora, desconfortáveis, como provar legumes depois de adulto.

 Aos poucos, deixo o olhar romântico e lembro 

do desabafo que nunca vinha, das minhas perguntas eternas: onde fica a sua dor? 

Do meu desconforto em falar de erros com alguém tão simétrico, linear. 

Há espaço ainda para a lembrança da falta de questionamento do próprio caráter eternamente em formação (como todos) 

E vou querendo te contar 

que só dominamos os nossos demônios quando assumimos que eles estão lá. 

Que a saudade pode ser suave e às vezes dói. 

Ainda bem que somos daqui.

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