“Nenhuma palavra traduz satisfatoriamente o amalgama de sentimentos que é a saudade. Seria preciso nos outros países a elaboração de um conceito que também amalgamasse um mundo de sentimentos em apenas um termo.” (A saudade Brasileira, Osvaldo Orico)
Queria, às vezes, só saber de você.
Sinto saudades.
Lembra quando te falei dessa palavra?
Da epistemologia, mas especialmente do seu significado tão brasileiro, tão nosso.
Sinto falta do seu interesse por curiosidades não pragmáticas, de ouvir as suas histórias.
Nem sempre eram boas, mas a memorização de detalhes e termos, a empolgação ao contá-las, me apaixonava, me fazia querer estar perto.
Porque estar perto era ter e ser um pouquinho dessas coisas que te sobram e me faltam.
Como no hit da Tiê, o perto nunca bastava.
Queria te contar que o porquinho de pelúcia com touca de banho que me deu ainda está na mesma prateleira que sustenta livros, fotos, dinossauro, cubo mágico – na então categoria de coisas que fazem sentido.
Porém, seus bilhetes se foram.
É que não deixo um bocado de você ir embora,
ao passo que já não associo suas palavras como verdades.
Aos poucos, uma hora, você e a pelúcia se vão.
Ainda não sei o que faço com a falta, com a nossa vida no interior que não vai existir, com o seu doce olhar exclusivamente pra mim, que nunca existiu.
Te deixar ir é uma dessas escolhas, por ora, desconfortáveis, como provar legumes depois de adulto.
Aos poucos, deixo o olhar romântico e lembro
do desabafo que nunca vinha, das minhas perguntas eternas: onde fica a sua dor?
Do meu desconforto em falar de erros com alguém tão simétrico, linear.
Há espaço ainda para a lembrança da falta de questionamento do próprio caráter eternamente em formação (como todos)
E vou querendo te contar
que só dominamos os nossos demônios quando assumimos que eles estão lá.
Que a saudade pode ser suave e às vezes dói.
Ainda bem que somos daqui.
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